Entre no
nosso grupo!
WhatsApp
  RSS
  Whatsapp
Traduzir:

Quando o corpo sussurra, é hora de ouvir: o legado de Preta Gil além da dor

Um convite a olhar para dentro, ouvir os sinais e agir antes que o silêncio vire urgência

Compartilhar com UTM
Link copiado! Agora você pode colar o link com UTM no seu Instagram.

Nos últimos dois anos, a cantora Preta Gil nos ensinou muito mais do que podíamos imaginar. Não com seus discos, palcos ou entrevistas — mas com a coragem de transformar o seu próprio corpo em testemunho público. Ao expor, com sinceridade e dignidade, a rotina de exames, o impacto da estomia, os dias de cansaço e os pequenos triunfos do tratamento contra o câncer de intestino, ela nos deu algo raro: uma oportunidade de olhar para nós mesmos sem os filtros do medo ou da negação.

E essa oportunidade não pode ser desperdiçada.

O câncer colorretal — tipo que acometeu Preta — já é o segundo mais comum entre mulheres no Brasil, atrás apenas do de mama, e o terceiro entre os homens. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a estimativa é de que mais de 45 mil novos casos sejam diagnosticados em 2025. A faixa etária mais afetada está entre 50 e 70 anos, mas os especialistas têm alertado para o aumento de casos em pessoas mais jovens, inclusive na casa dos 40. Isso significa que o problema está se aproximando cada vez mais cedo — e exige atenção urgente.

O que essa doença tem de perigosa, ela tem de silenciosa. Em grande parte dos casos, o câncer de intestino se desenvolve de forma assintomática nos estágios iniciais. Quando surgem sinais como sangue nas fezes, alterações no ritmo intestinal, perda de peso inexplicável ou dores abdominais persistentes, muitas vezes a doença já está em estágio avançado. E aí, o tempo é um inimigo impiedoso.

Preta Gil sabia disso. E mesmo atravessando o tratamento mais duro de sua vida, usou suas redes, sua voz e sua imagem para dizer, em alto e bom som: prevenir é mais poderoso do que remediar. Ela expôs o que muitos ainda escondem: a vergonha de falar sobre o próprio corpo, o medo de buscar diagnóstico, o constrangimento de lidar com limitações físicas. E, com isso, ajudou a abrir um espaço necessário para que outras pessoas também pudessem falar — e se cuidar.

É preciso lembrar que mais de 90% dos casos de câncer de intestino têm cura quando descobertos precocemente. A colonoscopia, exame que permite detectar e remover pólipos antes que se tornem malignos, é recomendada a partir dos 45 anos — ou antes, se houver histórico familiar. Mesmo assim, muitos brasileiros nunca fizeram o exame. Falta de informação? De acesso? De cultura preventiva? Tudo isso junto.

A alimentação também entra nessa equação. Dietas pobres em fibras, ricas em embutidos e carnes processadas aumentam o risco da doença. Por outro lado, manter um prato colorido, com frutas, legumes, grãos integrais e água em abundância, além de praticar atividade física regularmente, pode reduzir significativamente as chances de desenvolver esse tipo de câncer. Não se trata de perfeição — mas de consciência.

No fim, o que Preta Gil deixa não é apenas saudade. É um alerta. Uma convocação silenciosa, mas urgente. Uma chance de fazer diferente — antes que seja tarde. A morte, embora inevitável, pode nos ensinar sobre a vida. Sobre a pressa que temos em adiar exames. Sobre o corpo que avisa, sussurra, pede atenção. Sobre o autocuidado como ato de amor e não de obrigação.

Que a dor dela não tenha sido em vão. Que o debate iniciado por sua coragem continue ecoando em nossos consultórios, nossas cozinhas, nossos espelhos. Que saibamos ouvir — e agir — enquanto ainda é tempo.

Vânia Vìgo é jornalista, escritora e pós graduada em jornalismo político.

Mais em Vânia Vigo

Notificação de Nova Postagem
Imagem