O tema de uma Audiência Pública, realizada na manhã desta quinta-feira (24/03), na Câmara Municipal de Camaçari, rendeu discursos inflamados entre palestrantes, convidados e vereadores, além da interferência por diversas vezes da plenária. Após solicitação do historiador Diego Copque, a Comissão de Educação e Assistência Social da Casa Legislativa, abriu o debate sobre a possibilidade de mudança da data de fundação da cidade.
Diego Copque escreveu um livro intitulado “Do Joanes ao Jacuípe”, onde explica após longa pesquisa, que 29 de maio de 1558 seria a data de fundação de Camaçari, enquanto 28 de setembro de 1758 seria a data de emancipação política do município. A iniciativa do historiador em corrigir as datas não foi bem vista por alguns parlamentares, historiadores e principalmente por moradores de Vila de Abrantes.

Na oportunidade, Diego pontuou que a Audiência estava tomando um caminho pautado no rumo do debate político, e que essa não era sua intenção. “O que tiro dessa experiência hoje aqui é que o contraditório faz parte. A gente está aqui propondo justamente o amplo debate, mas que ele seja pautado na ciência, na historiografia, no estudo, e não em interesses pessoais ou políticos, e em um dado momento a discussão foi conduzida pela política, e eu não sou agente político, sou pesquisador, historiador. Se a necessidade de submeter a nossa obra a um grupo, ou uma banca de especialistas, que o faça, mas discutir minha obra dentro de uma perspectiva política ideológica partidária é um rumo que não me cabe e não me pertence”, ressaltou.
Diferentes versões sobre a construção histórica do município foram trazidas na tribuna por moradores de Abrantes, que contestaram as datas apresentadas pelo historiador que propôs a audiência. O também historiador Emerson Sales, nativo do distrito, pontuou que ao longo dos anos “Abrantes vem sendo injustiçada por Camaçari, um filho rebelde”. “É preciso que essa Casa Legislativa, que tenho o maior respeito, faça uma reparação ao dia 28 de setembro, pois em 1957 foi aprovada a Lei 53 por unanimidade, onde através de seu Eduardo Cavalcante, historiador, poeta, jornalista, camaçariense e defensor da história de Abrantes, pediu que se criasse na Câmara um dia em homenagem ao Velho Município de Abrantes, e essa data foi 28 de setembro, para relembrar os seus feitos históricos, e essa mesma data foi trazida para Camaçari como a data de sua emancipação política. Na época foi aprovado inclusive um orçamento municipal para se comemorar a semana de Abrantes, e não sei porque 'cargas d’água' isso mudou. Tenho muito respeito pelo Diego Copque, excelente obra, mas ele está contando uma história que é do Velho Município de Abrantes e não de Camaçari. S quer fazer uma reparação de data que comece por 28 de setembro. Devolva o dia de Abrantes que foi uma lei aprovada aqui”, pediu.

Foi concedida a fala também para o historiador e morador de Abrantes José Fernando, que cobrou provas sobre as datas defendidas por Diego Coque. “A nossa Abrantes nasceu em 1558, agora se o nobre historiador comprovar com três fatos, três referências ou três fontes que em 29 de maio nasceu a Aldeia do Divino Espirito Santo, eu vou bater palmas para ele. Abrantes é um pedaço da história da Bahia e do Brasil, e estão jogando tudo debaixo do tapete, e nós não aceitamos. Abrantes precisa ser respeitada, Abrantes tem uma história bonita, mas nunca respeitaram essa história”, disse aos gritos.

O Portal buscou ouvir outras figuras que marcaram presença na audiência, como o morador de Abrantes Ari Barbosa, que fez duras críticas ao tema do debate. “Camaçari se apropriou da história de Abrantes, Camaçari é um filho agregado de Abrantes. Eu conheço toda a região há mais de 30 anos, a minha família tem casa na região, a família da minha esposa também, e há 12 anos tenho residência física em Abrantes e defendo Abrantes como meus filhos e netos. Camaçari não tem história nenhuma, e quando se diz ‘tudo como antes, no quartel de Abrantes’, não diz que é no quartel de Camaçari. Qual foi o local onde se concentraram as forças para expulsarem os portugueses da Bahia? Foi em Abrantes, ou seja, ela nasceu muito antes de Camaçari que veio no século XIX, já Abrantes veio no século XV. Os vereadores da renovação querem renovar até a história”, ironizou.
O ex-vereador Cleber Alves enfatizou que é importante “Camaçari buscar sua identidade, sem subtrair a história de Abrantes”. “Nós já perdemos muito para Camaçari, já perdemos o metal, o ouro, a capacidade de administrar, de mandar, de zelar pelo nosso município. Então hoje querer tirar até uma data histórica é demais, daqui a pouco vão mandar a gente vender a casa e ir embora. A população está aqui inquieta porque a ideia é sempre de subtrair, sempre de tirar, nunca de ofertar algo”.
Os parlamentares moradores de Abrantes também se posicionaram sobre o assunto. Dr. Samuka (CIDADANIA) pontuou que tocar na história de Camaçari, é mexer na história de Abrantes, “uma ferida que estava cicatrizada”, na sua opinião. “Mudar a data da emancipação de Camaçari é apagar a história de Abrantes, porque só vamos contar a história de Camaçari e não de Abrantes, que aceita ser administrada por Camaçari, mas ela tem um sentimento de pertencimento que é dela mesmo, e os nativos, moradores de Abrantes não vão dividir esse senso de pertencimento. Acho que foi inoportuna essa discussão, existe outros temas para se tratar na cidade, porque esse só divide, porque Abrantes nunca vai aceitar tocar na história dela”, declarou.

O presidente em exercício, o vereador Jamessom (UNIÃO Brasil) avaliou que a pauta foi produtiva e que o debate é o início de um processo de correção histórica. “Uma vez que nossa mandato chega a Câmara para discutir é preciso ter muita tranquilidade, ouvir os moradores de Abrantes, a sociedade, mas também temos que nos embasar pela história, pela análise de documentos históricos, a ciência precisa ser respeitada, então tudo que vier de Diego Copque tem a ver com a ciência, análise documental, ele é um profissional da história, tem todo meu respeito e contribuiu muito com a sessão com todos relatos que ele trouxe técnicos, longe da política e ela é necessária para que os espaços sejam garantidos, mas cada um precisa estar em seu lugar. Os historiadores estudaram, pesquisaram, investigaram a história e essa Casa precisa ouvir a todos, mesmo tendo em um mesmo espaço pessoas divergindo sobre as ideias e os divergentes precisam trazer também comprovações e confirmar tudo que dizem”.

Ao final da atividade, o Portal questionou o historiador Diego Copque em relação as falas contrárias à sua pesquisa. O professor confessou que não se sentiu ofendido com as opiniões diferentes a sua, mas surpreso com o direcionamento que debate tomou. “Não estamos fomentando uma ruptura entre a sede e Abrantes, muito pelo contrário, o que estamos propondo é um resgate da nossa história, da nossa cultura, da nossa memória, e o debate foi conduzido de uma forma como se nós quiséssemos pautar a apropriação de Camaçari a história de Abrantes e a verdade não é essa. Trata-se de um território só, Camaçari é uma cidade só, não temos a cidade de Camaçari e a cidade de Vila de Abrantes, e se por ventura houver um processo de emancipação de Abrantes, de qualquer ruptura nesse sentido, ainda assim a história não muda, a história de Abrantes vai continuar a mesma, e a história da povoação de Camaçari vai continuar a mesma”, explicou.
A plenária teve direito a fala e 10 pessoas dissertaram sobre o tema ou fizeram perguntas aos palestrantes e convidados. Ao final ficou definido que uma comissão seria formada para ampliar o debate e estudo sobre o tema.





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